''Eu não sou arroz de festa. Prefiro pouca gente por perto. E o que aparece de amigo, de parente e de convite! Eu não vou mesmo, de jeito nenhum''Na antessala do consultório dentário que frequenta há 20 anos, Fausto Silva, 58, atendeu a equipe de Contigo!, em uma entrevista tão inusitada (sim, pegamos ele!) quanto exclusiva. Pessoalmente, ele é maior do que se pode dimensionar quando visto na TV - 1,89 metro de altura - e fala ainda mais rápido. Poucas vezes faz pausas em seu pensamento e não foge de nenhuma questão. O tom de voz altera levemente (para baixo) quando o assunto são os filhos - Lara, 10 (de sua união com a artista plástica Magda Collares, 41), João Guilherme, 5, e Rodrigo, (10 meses, do atual casamento com a jornalista Luciana Cardoso, 31). Aí, Fausto sorri ternamente. E afirma que ''é amigo'' dos três. ''Eles me dizem: 'Preferimos você doido assim, diferente do pai tradicional''', assume o apresentador, revelando um lado pouco conhecido. A seguir, confira a entrevista com Fausto, 20 anos de Globo recém-completados, à frente do Domingão do Faustão.
Ao completar 20 anos na Globo, apresentando o Domingão do Faustão, já se vê como um ícone da TV brasileira?
Não! E nem penso nisso. Sou um jornalista que virou artista por acaso. Tenho consciência da minha responsabilidade, mas não vivo em função disso. Como fui muito tempo estilingue e hoje sou vidraça, e um vidração (ele ri de sua piada), tenho certa cautela. Um programa de domingo é como um supermercado: você tem de atender a todas as classes sociais e idades porque as pessoas veem TV juntas. E o domingo é um dia de muita concorrência. Mas sempre fui contra essa coisa de se autoelogiar e se autopromover. Não é o meu jeito, não.
Como descreveria o seu jeito?
Eu não sou arroz de festa. Prefiro pouca gente por perto. E o que aparece de amigo, de parente e de convite! Quando eu era repórter, ninguém me convidava para p... nenhuma. Hoje os caras me convidam para fazer merchandising de graça. Eu não vou mesmo, de jeito nenhum! O meu dia-a-dia é muito simples, não tem glamour.
O que o faz ser o tal cara simples, que mantém a cabeça no lugar?
Com o meu tamanho e o meu peso, se eu não tiver juízo, a hora em que cair vai ser uma hecatombe (risos). Eu não posso achar que sou diferente ou o melhor do mundo. Eu acho isso uma babaquice, sempre abominei essa postura. Eu aprendi a ter equilíbrio com os meus amigos mais velhos e com a vida. Não se pode dar um tiro na cabeça por causa de uma crítica e muito menos achar que é insuperável quando se recebe um elogio. Acho legal o que eu faço, mas não gosto de estimular a idolatria. Se o cara acredita nisso, é o começo do fim. Quando o cara acha que é o rei, é o fim, entendeu?
Um dos motivos de seu sucesso seria sua imagem popular...
O rádio e o jornal me ajudaram muito a ter jogo de cintura e a não depender de ficha na televisão. O Perdidos na Noite (programa apresentado por Fausto na década de 80 na TV Record e, depois, na Band) me ajudou também.
Você acha que a fórmula do Domingão funcionará por quanto tempo?
Não dá para prever, a televisão está mudando. Quando Domingão começou, não existia controle remoto, TV a cabo, telefone celular nem internet. E shopping não abria no domingo. São cinco mudanças de comportamento. Eu acho que o programa de auditório vai continuar porque é o único lugar da TV com calor humano, literalmente. Lá, o famoso encontra o público e o anônimo tem seu momento de famoso. O público interfere nas atrações e participa de alguns quadros com seus ídolos. Mas não dá para saber realmente até quando vai ou até quando o público terá paciência.
Enxerga algum sucessor?
Tem muita gente nova com valor. Mas não é uma questão de existir um sucessor. O grande segredo do apresentador é ter uma personalidade artística definida. Não basta só carisma, precisa ter uma marca. É só olhar para gente como Chacrinha, Blota Júnior, J. Silvestre, Flávio Cavalcante, Hebe Camargo, Silvio Santos... Um programa com apresentador depende 50% dele. Um erro comum é tentar fazer um programa para o apresentador A que tem de ser igual ao apresentador B.
Mas não citaria um nome?
Eu seria injusto, mas tem um monte de gente, como Luciano Huck, André Marques... Se a pessoa está comandando um programa, claro, ela tem mérito. Agora, se vai durar, aí não dá para prever. Depende de uma série de coisas: repertório, inteligência... E se não vai se perder no comportamento pessoal.
Apesar da imagem bem-humorada, você é durão?
Comigo, tem de ser profissional. Para fazer um programa ao vivo, com a improvisação do imponderável, se não tiver disciplina, não tem jeito. Eu tento passar isso (de ser disciplinado) para as pessoas. Por exemplo, nunca bebi ou fumei. Tentei provar vinho e cerveja, mas não gostei (risos).
Em casa também é assim?
Eu não sou metódico ou chato. Eu sou organizado até por uma questão de vantagem para todos. Morei sozinho muito tempo. Se você não for um pouco disciplinado, a bagunça toma conta de você. Eu sou muito pragmático na relação custo-benefício. Por exemplo, quando você faz uma viagem com tudo programado, se der uma zebra você consegue dar um jeito. Se for na bagunça, vira zebra mesmo.
É você quem programa suas viagens?
Não, na minha casa, quem manda é a minha mulher. Está na cara, né (risos)?!
Por quê?
Eu não sou um imbecil de achar que mando. É a mulher quem manda na casa. Até porque ela é uma pessoa extraordinária, com espírito de família e uma cabeça supermadura. Estamos juntos há oito anos.
A diferença de idade incomoda em algum momento? (Luciana é 27 anos mais nova)
Ela me diz que não. Eu nem sei que idade ela tem... Não ligo para isso, não. Se a gente começa a pensar nesses detalhes, não vive. É aquela história do cara que fica pensando e deixa de agir. Eu vou fazendo tudo que vem.
É verdade que você negociou contrato com a Globo até os 65 anos?
Não há nada conversado, ainda. Deve acontecer uma reunião com o (diretor-geral da Globo) Octávio Florisbal entre o fim deste mês e o início de abril para começarmos a negociar. Meu contrato vence no fim do ano. Está certo que os programas serão feitos exclusivamente no Rio de Janeiro? Este ano continua no Rio e em São Paulo, um em cada lugar. Depois, se renovar, aí a gente vai ver como será feito.
A renovação não está garantida?
Todo mundo fala, mas eu sou como São Tomé... Certo para mim é assinado e sacramentado. Eu tenho uma relação muito boa, são 20 anos. Empresa perfeita não existe, mas a quase perfeita é a Globo. Ela tem respeito ao talento. Problema todo mundo tem e você tem de resolver internamente, senão, é uma deslealdade. É uma questão de inteligência porque há poucos lugares para trabalhar...
Mas quais são os seus planos para o futuro?
O meu plano é cuidar dos meus filhos... Não adianta querer fazer plano no mundo de hoje. Quando você está fazendo aquilo que gosta e está motivado, tem de continuar. Domingão tem 20 anos no ar e só sofreu problemas de audiência em um ano, só em São Paulo.
Há alguns anos você passou a se envolver na elaboração do Domingão... (ele interrompe)
Passei mais por uma sugestão do Octávio Florisbal, porque na fase de transição que a Globo viveu depois do Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, vice-presidente de operações da Rede Globo entre 1980 e 1997) era tudo empírico. Gente que não tinha vivência nesse tipo de programa mudou a característica. Teve um gênio que tirou o balé e colocou jornalista dando informação. Isso foi de uma irresponsabilidade... Lembro de ter encontrado o Boni em um restaurante, naquela época. Ele me falou: “Se você conseguir superar essa imbecilidade que fizeram com o seu programa, você é um gênio”. Foi um desastre. Ainda assim, o programa sobreviveu. Curiosamente, Evandro Carlos de Andrade, saudoso diretor de jornalismo da Globo, havia dito para a equipe dele: ''O Domingão é do Faustão, não é da Globo. Ele tem de ter o jeito do Faustão''. A verdade é que jornalista quando vai fazer show e gente de show quando vai se meter a jornalista é a mesma mercadoria... (risos)
Mas você é um jornalista que foi fazer show...
Mas parei de ser jornalista e aí é diferente.
Bem, mas como é sua rotina de trabalho?
Todo mundo acha que eu só trabalho no domingo, né? Pelo menos uns dois ou três dias na semana tenho reuniões com o departamento comercial. Sou o único artista que tem envolvimento total com o comercial. É uma questão de inteligência: quanto mais eu souber das necessidades e dos problemas do anunciante, melhor fica a minha comunicação. Às quintas-feiras, eu faço uma reunião durante todo o dia com as equipes de criação e do programa. Sábado é o meu domingo. Às vezes, segunda-feira também dá para dar uma fugida. Eu tenho uma vida mais simples que um copo d'água.
Ainda tem parte da semana livre. O que faz?
Bom, por incrível que pareça, eu faço ginástica todos os dias, de segunda a sábado, pelo menos uns 45 minutos (risos). Eu sou aquele gordinho que acredita: ''Um dia vai dar certo''.
Preocupa-se com a saúde?
Eu me cuido. Faço exercício, tenho uma alimentação normal e faço exames. Peso 120 quilos e cheguei a pesar 152, em 1985. Emagreci para preservar a saúde. Por ironia, eu como pouco para o meu tamanho. Nos rodízios que frequento, os caras morrem de rir. Pela quantidade que como deveria estar mais magro.
Ainda se considera tímido?
Eu fui um garoto tímido, mas a profissão me desinibiu. Veja: meu filho João Guilherme é um cara-de-pau. Por isso, as pessoas acham que ele é o Fausto criança. Fisicamente, ele realmente é muito parecido comigo. Mas eu não era como ele, eu era tímido.
Que tarefas de pai faz? Troca fraldas?
Não, de jeito nenhum. Não sei fazer nada disso. A minha relação com os meus filhos é de amigo. Claro, eu quebro o pau também. Eles percebem. Tem hora que eu falo como pai. Mas sou amigo durante 80% do tempo. E eles sempre me dizem: ''A gente prefere você doido assim, diferente do pai tradicional''.
Você corta as regalias deles?
Mas é lógico! Meus filhos têm sim e não do mesmo jeito. Começou a falar 'sim, sim, sim', eu digo: 'De jeito nenhum'!
Por isso, no aniversário de João Guilherme (em fevereiro), você disse que seria o último em um bufê infantil?
Claro! Ele chegou para mim e falou: ''É pai, eu sou como o senhor. Quando convido, eu falo que pode ir a família toda''. Então eu falei: ''Este tipo de aniversário grande acabou''.
Mas ele só tem 5 anos!
Ele é supernovo, mas é um aviãozinho. Então, a gente tem de ter essa preocupação. Até porque, se você não tiver, ele vai sofrer muito mais com as cobranças e as comparações. É o filho do famoso, o pai trabalha na TV...
Dá para conversar assim com crianças tão pequenas?
Sim, por isso meus filhos não falam mole...
Como é para eles ver o pai na televisão? E se alguém quiser seguir os mesmos passos?
Para eles é normal. João Guilherme fala: ''Quero ir lá, fazer ao vivo''. Ele é o rei de falar isso. Quando estiver com 15 ou 16 anos, se eu sentir que é vocação, ele fará o que quiser. O que eu não posso é explorar meu filho enfiando na TV. Amanhã, ele poderá falar: ''Pô, eu não gostava e foi meu pai que me enfiou nisso aí''. Já a Lara não tem nada a ver com isso.
E o bebê, já está com quase um ano...
Este é sério... Ele é o glorioso bochechão.
Já aprendeu a falar algo?
Ele grita, parece uma (ave) calopsita.
Quanto sua família representa em sua vida?
É o maior patrimônio, sem dúvida. Os meus filhos são a razão da minha vida. E eu nem pensava em ter filho... É óbvio que eu estou em uma boa profissão e tenho uma boa condição em um país injusto. O fato de eu ter tudo isso me faz dar mais valor para as coisas simples. Por exemplo, eu não tenho dúvida nenhuma de quem é meu amigo verdadeiro e de quem é amigo do cara da televisão.
Em maio, você completa 59 anos. A proximidade dos 60 o faz pensar em mudar algo?
Eu não fico pensando nesse troço de idade. Eu não me lembro dos 30, dos 40, dos 50... Eu vou vivendo. A vantagem do pai velho é que ele tem mais qualidade de vida com os filhos. Eu tive mais tarde e convivo mais com meus filhos.
Você se vê fazendo algo diferente na TV?
Eu tenho umas ideias. Mas eu não vou fazer. Estou em um processo que dá muito resultado e a empresa não tem a mínima intenção de mudar, pelo menos até agora. Aí não adianta...
E ainda se diverte trabalhando?
Eu curto mais agora do que no começo. Antes eu estava muito preso à forma do Perdidos na Noite, que foi uma paixão. Se eu não tivesse mudado, ficaria eternamente um cara alternativo. O segredo foi mudar.

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