Várias atrizes - entre elas Natália do Vale, Lilia Cabral e Giovanna Antonelli - e até a cantora Cláudia Leitte já afirmaram que interpretar uma Helena de Manoel Carlos é um grande sonho. Mas para algumas estrelas que passaram por essa experiência o sonho virou um pesadelo. É o que está se passando agora com Taís Araújo. A atriz vem sofrendo agressões tão absurdas que me fazem pensar se o problema em relação a ela é realmente sua atuação ou se é preconceito mesmo. O que tenho lido em relação a ela são ofensas pessoais descabidas. Uma coisa é o público criticar a atuação de um ator. Faz parte do show e quem entra na chuva é para se molhar. Mas criar comunidade para desejar a morte da personagem? Além de ridículo, não faz sentido, já que Helena é uma pessoa 100% do bem, talvez um pouco arrogante, mas honesta, amiga, generosa… E passam a desejar a morte de alguém assim? É realmente a inversão de todos os valores. Outro dia a jornalista Sônia Abraão elogiou o desempenho de Taís, mas reclamou que Helena é muito chata. Não acho que ela seja chata. Mimada e insuportável é Luciana, lindamente interpretada por Alinne Moraes. E até Tereza (show de interpretação de Lilia Cabral), que jogou todas as suas amarguras e frustrações em cima da nova mulher de seu ex-marido, Marcos (José Mayer). Mas historicamente as Helenas sempre viveram na corda bamba das novelas. Digo isso porque dentro da obra de Manoel Carlos, as mitológicas Helenas nem de longe foram as personagens mais interessantes de suas tramas. Da mesma forma que aconteceu nas histórias anteriores de Maneco, as personagens secundárias, como Luciana (Alinne Moraes), Tereza (Lilia Cabral) e Renata (Bárbara Paz), são bem mais sedutoras do que a protagonista. E isso não é culpa da Taís, já que as outras atrizes que interpretaram Helenas também foram eclipsadas por suas ”rivais”. Vamos analisar caso a caso…
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LILIAN LEMMERTZ, HELENA EM BAILA COMIGO (1981)
É a melhor Helena de todas. E nem era a protagonista de Baila Comigo. Tony Ramos e Reginaldo Faria tinham os papéis centrais, e as principais personagens femininas eram divididas entre ela, Betty Faria, Natália do Vale e Lídia Brondi. Mas Helena era de longe a melhor. Quase uma vilã. Mãe de filhos gêmeos, permitiu que os dois fossem criados separados: Quinzinho (Tony Ramos) ficou com ela no Brasil e João Victor (Tony Ramos) com o pai, Quim (Raul Cortez), em Portugal. Para aliviar esse comportamento nada elogiável de Helena, ela era retratada como uma mulher batalhadora e sofrida. E ganhou uma interpretação magistral de Lilian, cheia de nuances e altamente explosiva. Mas mesmo assim o público não perdoou facilmente uma mãe que foi capaz de separar irmãos gêmeos. Foi preciso que ela derramasse muitas lágrimas para que os espectadores se comovessem com ela e a acolhessem em seus braços. No final, deu tudo certo.
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MAITÊ PROENÇA, HELENA EM FELICIDADE (1991)
Manoel Carlos voltava à Globo oito anos depois do sucesso de Sol de Verão (1982). E dez anos separam a Helena de Lilian Lemmertz da personagem escrita para Maitê Proença. Mais uma vez a personagem está envolvida com mentiras envolvendo crianças. Helena se apaixonava por Álvaro (Tony Ramos), que estava de casamento marcado com Débora (Vivianne Pasmanter), e acabava engravidando dele. Helena se cala, casa com Mário (Herson Capri) e o reencontro com Álvaro acontece oito anos depois. Mas ela já mentiu tanto que se tornava fácil para Débora atrapalhar uma reconciliação de seu marido com o grande amor da vida dele. Maitê estava no auge da beleza, mas um furacão chamado Vivianne Pasmanter – estreando em novelas – roubou todas as cenas e acabou virando o grande destaque da novela.
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REGINA DUARTE, HELENA EM HISTÓRIA DE AMOR (1995)
Regina estreava no horário das 6, mas com uma personagem digna de novela das 9. Helena era ética, centrada e sofria com a gravidez precoce da filha, Joyce (Carla Marins), e a paixão tumultuada pelo médico Carlos (José Mayer). Tudo estaria muito bem se o doutor não fosse noivo de Paula (Carolina Ferraz) e sofresse o assédio da ex, Sheyla (Lilia Cabral). Por mais elaborada que a personagem principal fosse, Helena foi estraçalhada por Paula e Sheyla, donas de personalidades muito mais fortes. Começava aqui a saga de Lilia Cabral como ladra oficial de cenas das novelas de Manoel Carlos. Os embates entre ela e Carolina eram incendiários. É claro que Helena ganhou o mocinho no final, mas de forma pra lá de apagada. O brilho mesmo foi das neuróticas ex-mulheres do sujeito.
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REGINA DUARTE, HELENA EM POR AMOR (1997)
A segunda melhor Helena do autor. Em nome do amor, ela foi capaz de trocar seu filho saudável pelo neto morto. Helena e a filha, Maria Eduarda (Gabriela Duarte), acabaram dando à luz no mesmo dia e horário. Mas o bebê de Eduarda morre logo após o parto e ela ficou impossibilitada de engravidar novamente. Para aliviar a dor da filha, Helena trocou as crianças, sem se importar com o sofrimento que isso causou ao marido, Atílio (Antonio Fagundes). Tudo seria perfeito para Regina. Uma grande personagem, uma história arrebatadora. Mas ela não contava que Susana Vieira, como a altiva e ferina Branca Letícia, fosse tomar conta da novela e atrair todas as atenções. Para piorar, Vivianne Pasmanter, mais uma vez, arrebatou corações como a implacável Laura, e o casal Milena (Carolina Ferraz) & Nando (Eduardo Moscovis) virou o principal par romântico da história. Para piorar, o público se irritava com Helena, a quem considerava chata e chorona. Uma óbvia injustiça com a interpretação maravilhosa de Regina. Mas, não, se nem Jesus Cristo conseguiu a unanimidade…
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VERA FISCHER, HELENA EM LAÇOS DE FAMÍLIA (2000)
O último grande papel de Vera Fischer. Uma Helena novamente loura, linda, mas totalmente dedicada à filha, Camila (Carolina Dieckmann). A tal ponto que abriu mão de seu romance com o gatíssimo Edu (Reynaldo Gianecchini) para a mimada Camila, que também se apaixonou pelo médico. Apesar da boa interpretação de Vera, o drama de Camila – que teve leucemia – atraiu todos os holofotes. Para piorar, uma Deborah Secco, endiabrada como a ninfeta-malvada-debochada Íris, virou a grande atração da novela. E como um auxílio luxuoso, lá estava ela: Lilia Cabral. Seu papel era mínimo (Ingrid, mãe de Íris) e ela morria assassinada logo no início da trama. Mas, mesmo assim, conseguiu roubar cenas. Todo mundo elege o momento em que Camila precisou rapar a cabeça como o mais emocionante da história. Mas para mim foi a cena de despedida de Alécio (Fernando Torres) e Ingrid, com ela lembrando, ao lado do marido agonizante, passagens da vida que tiveram, que mais me comoveu. Lindo, tocante, maravilhosamente bem interpretado e dirigido. Uma apoteose para Lilia e um balde de água fria na cabeça da bondosa Helena.
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CHRISTIANE TORLONI, HELENA EM MULHERES APAIXONADAS (2003)
Peguei implicância com a Helena, de Chistiane Torloni, logo nos primeiros capítulos. Altiva demais. Arrogante além da conta. Ela era antipática e ainda tratava todo mundo com um irritante ”meu bem”, que me tirava do sério. Para piorar, seu romance com César (José Mayer) não convencia, muito menos o casamento com Téo (Tony Ramos). Para completar, ela traía o marido, fato que não foi bem aceito pelo público. Com uma personagem tão irregular, foi fácil para Giulia Gam explodir como a ciumenta Heloísa, a verdadeira mulher apaixonada da novela. O drama da professora Raquel (Helena Ranaldi), que amava seu aluno adolescente, Fred (Pedro Furtado), e era vítima das raquetadas do marido sociopata (Dan Stulbach), também agradou muito. E Natália do Vale arrasou como Silvia, dona de casa fogosa, que virou amante do taxista gostosão, Caetano (Paulo Coronato). Ou seja, sobrou muito pouco para Helena fazer.
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REGINA DUARTE, HELENA EM PÁGINAS DA VIDA (2006)
Certamente a pior de todas as Helenas. Perto dela, a vivida por Christiane Torloni era tudo no mundo. As caras estranhíssimas que Regina fazia também não ajudavam em nada a fazer o público torcer por ela. E Lilia Cabral voltou a roubar a novela para ela na pele da amargurada e interesseira Marta. Não teve para mais ninguém. E olha que o elenco reunia ainda as divas da tela Ana Paula Arósio, Glória Menezes, Sonia Braga, Natália do Vale, Danielle Winits, Renata Sorrah, Vivianne Pasmanter, Letícia Sabatella, Deborah Evelyn, Grazi Massafera, Helena Ranaldi, Christine Fernandes, Regina Alves, Fernanda Vasconcello, Leandra Leal e Louise Cardoso. Todas muito bem em suas personagens, mas nada que se possa comparar ao tour de força de Lilia. Se duvidar, muita gente nem lembra que Regina Duarte estava em Páginas da Vida…
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TAÍS ARAÚJO, HELENA EM VIVER A VIDA (2009)
Já ouvi queixas do tipo: Helena é arrogante, é metida a ser madura demais. Ela é antipática e Taís não está nada natural. Até concordo que a atriz está formal demais em algumas cenas. Mas conhecendo Taís Araújo como pessoa e tendo acompanhado sua trajetória desde Tocaia Grande (1995), afirmo sem medo: o problema ali é da direção. Não sei o que se passa no reino de Jayme Monjardim, porque identifico esse comportamento formal também em Ellen (Danielle Suzuki), Ariane (Christine Fernandes) e até no Marcos (José Mayer), entre outros. Sem falar que tudo é muito teatral. Um simples café da manhã em família ou um encontro entre amigos é tratado de maneira tão impessoal e grandiosa… Parece que os personagens estão discursando e não conversando. Mas assisti a cenas lindíssimas de Helena com a irmã, Sandrinha (Aparecida Petrowky), em que Taís deu um show de interpretação. Engessada pela direção, ela tem poucas chances de enfrentar um monstro chamado Lilia Cabral, que tem nas mãos uma personagem muito melhor que Helena. Tereza é amargurada, rancorosa, mas tem um desejo louco de dar a volta por cima. Fica até desigual. E, para piorar, Tereza ainda consegue vencer as discussões com Helena, mesmo estando completamente errada em suas acusações. Tenho uma teoria de que Viver a Vida ainda não começou. Manoel Carlos está fazendo um longuíssimo prólogo e apresentando seus personagens. E que a trama realmente se desenvolverá no ritmo correto depois do acidente que deixará Luciana tetraplégica. Tenho certeza que a partir daí Taís Araújo vai poder mostrar do que é capaz. Sua Helena será corroída pela culpa, vai ser apontada como a responsável pelo drama de Lu e ainda descobrirá que foi traída pelo marido e que outra mulher espera um filho dele. Sem contar que terá de sustentar o marido falido e se apaixonará por Bruno (Thiago Lacerda), o filho bastardo de Marcos… Depois de enfrentar tantos dramas, quero ver quem ainda terá coragem de atirar pedras na personagem. E em Taís. Elas definitivamente não merecem!
Blog do Jorge Brasil









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